Todo produtor sabe, que uma visita técnica tem que ser muito bem feita,

e em minha opinião pelo produtor que vai tocar o JOB, e o que você diria de pegar um job no meio do caminho?
Pois é, vou contar aqui como isso aconteceu comigo e lógico muito mais.
Eu estava saindo de um job no Nordeste, e para minha surpresa recebo um telefonema do dono da agência me convocando para participar de um “Jobinho tranquilo” eu deveria me dirigir para Maceió… É isso mesmo de Salvador para Maceió de carro.
Estávamos naquela época de apagão, caos aéreo então avião não era uma boa opção, afinal eram apenas mais 585 km ou 8/9 horas de carro.
Vamos lá, pegamos o carro e seguimos viagem eu e o Américo meu assistente e fiel escudeiro e lá encontraríamos outros produtores que me explicariam o “Jobinho tranquilo”.
Decidimos ir numa paulada só em dois dirigindo, aproveitando o visual do nordeste tudo de bom.
Chegamos a Maceió muitas horas depois, várias paradas, fui direto pro check in, jantar e uma boa noite de repouso, porque no dia seguinte receberia o briefing.
No café da manhã, uma produtora da agência local, nos passou o job, nada anormal, uma convenção em um navio, cenografia interna, montagem de show room, retirada de alguns bancos fixos, palestra, balada, etc.. Bora pro Porto vai ser suave! #SQN1
O cliente, uma multinacional de eletrodomésticos havia locado um contêiner no Porto, para receber os eletrodomésticos e aguardar o Navio.
Incumbi o Américo de recepcionar o material que logo chegaria nos caminhões da empresa, e todos ao mesmo tempo vindo das lojas locais, na teoria tudo tranquilo. #SQN2
Para complicar a nossa vida os Portuários de Maceió entraram em greve e impediam a entrada dos caminhões. O Américo passou horas negociando com os seguranças do Porto, usando toda a lábia de produtor, debaixo de um calor escaldante, eles acabaram liberando um caminhão por vez numa operação tartaruga, o coitado deve ter perdido uns 10 quilos abrindo e fechando o contêiner, que deveria estar uns 100 graus internamente para recepcionar e ajeitar geladeiras, fogões, máquinas de lavar e toda sorte de eletrodomésticos. E onde eu estava?
Eu estava na área de embarque coordenando a montagem e instalação de algumas tendas, balcões, mesas bistrôs, banquetas e sonorização com um DJ, além de uns cenotécnicos pra fazer a decoração em lycra usando o color code do cliente.
A ideia era montar um Buffet com frutas, sucos, refrigerante tudo bem “alto astral” para recepcionar os convidados antes do embarque, que seria em algumas horas tudo muito fácil não é? #SQN3
No exato momento em que tudo estava montado, recebemos a visita da Vigilância Sanitária.
– Ahhh, alimentos na zona Portuária? Disse o fiscal, sorrindo e vindo à minha direção.
Passei horas conversando com ele, argumentando, tentando convencê-lo que tudo era fresco e estava bem acondicionado, mesmo conferindo tudo e todas as notas, ele queria a licença que estava com a produtora local, e que por sua vez estava com o Américo coordenando o carregamento dos eletrodomésticos para dentro do navio e logo estaria ali certo? #SQN4
Lembram que os portuários estavam em greve? Pois é, todos estavam proibidos de trabalhar, principalmente os carregadores, e como colocar os eletrodomésticos pra dentro do navio sem os carregadores? Tudo tinha que ser muito rápido, pois por causa da maré o navio tem hora pra zarpar, e o Comandante, um Filipino com cara de poucos amigos já havia me avisado que zarparia na hora certa, com ou sem eletrodomésticos!
Não tive dúvidas pelo rádio “PEDI” que todos da agência: produtores, promotoras, atendimentos, sócios, cenógrafos começassem a carregar os eletrodomésticos pra dentro do navio enquanto eu resolvia o problema da ANVISA, para se ter uma ideia até os cozinheiros Filipinos do navio entraram na roda, e tudo foi carregado.
Licença na mão, Buffet liberado, solta o som que lá vem os primeiros convidados.
Enquanto os convidados aproveitavam o welcome on board, nossa produção acelerava o posicionamento dos eletrodomésticos na área onde montaríamos o show room, sempre com um tripulante Chinês na cola pra ver se não íamos danificar nada no navio.
Todos á bordo e finalmente o navio zarpou rumo ao Porto de Cabedelo na Paraíba, e iniciamos a montagem da cenografia, agora sim tudo tranquilo!#SQN5
Voltando um pouco no tempo chegamos ao ponto da “visita técnica”, na ocasião da aprovação do JOB, o atendimento da agência e a cliente foram conhecer o navio.
Como a visita era cortesia, uma vez que o navio não para o staff seria reduzido, ela teria que ser feita num cruzeiro, então lá foram: à executiva de contas, a cliente e a produtora do job.
“Não sei por que cargas d’água”, as medidas estavam erradas, este é um mistério até hoje não solucionado, mas a altura da cenografia era diferente do pé direito do navio. Simplesmente não cabia e após muita discussão eu decidi cortar os pés da cenografia, eram placas de compensado de 20 mm, estruturadas em curvatura e impressas que seriam o back drop de uma sala de mais ou menos 100 m². OK, vamos serrar! Obviamente o comandante vetou a serra circular, então tudo teria que ser feito no serrote, no melhor estilo lenhador. Deixei o pessoal serrando e fui ver como andava a retirada das cadeiras, pelo menos isso seria mais fácil certo? #SQN6
O Comandante, sempre ele, não queria mais autorizar a retirada de alguns bancos no salão principal, o espaço faria parte da cenografia na “plenária” que montaríamos para a apresentação da nova linha de produtos, retirá-los era uma questão estética já que ficavam bem na frente do palco e seria o Grand Finale, com uma iluminação especial ao se retirar o tecido que os cobriria.
Ele estava irredutível, negociamos em Português, Portunhol, inglês, e ele retrucava em inglês e esbravejava em Filipino, obviamente para não entendermos, e após vários minutos de discussão acabou cedendo em parte, o restante iríamos nos adequando, e assim foi feito.
Os convidados estavam todos no casino ou nas piscinas, aproveitando tudo que a embarcação tinha de melhor, e a montagem estava finalizada, desta vez até deu tempo de correr para a cabine tomar um banho e engolir algo parecido com um jantar.
Troquei a bateria do rádio e o show vai começar daí pra frente eram outros produtores que seriam os responsáveis pela plenária, e eu teria algumas horas de “descanso”.
Descanso? E quando é que produtor descansa? Após inúmeras tentativas de ligar para o Porto de cabedelo para checar se os carregadores estariam lá na nossa chegada, finalmente consegui fechar esta parte do job, deu até para subir ao deck e contemplar um pouco da lua e o alto mar.
Tudo transcorreu perfeitamente, uma parte linda da produção é a desmontagem, horas de preparação para minutos de desmontagem.
Chegamos a Cabedelo e de longe eu pude avistar 80 capacetes azuis, amarelos e vermelhos, era a minha força tarefa que em meia hora haviam esvaziado o navio, tudo acondicionado em outro contêiner à espera dos caminhões da empresa, agora sim tranquilo não? SQN7
Para fechar com chave de ouro um job tão zicado, é óbvio que os caminhões estavam atrasados, demoraram cerca de 6 horas para chegar, todos os convidados e o restante da agência haviam ido embora para os hotéis rapidamente e claro, ficamos somente eu e o Américo e a produtora de Maceió aguardando.
Isso foi mais uma de minhas produções, várias lições assimiladas, tudo é aprendizado, a convivência com outras pessoas de tão diferentes culturas e idiomas me serviram de conhecimento que levo pro resto da vida, e mais uma vez rindo das dificuldades, sempre respirando fundo e mantendo o excelente clima de respeito a todos os companheiros.
Passamos uma semana passeando pelas imediações, sabiam que a BR-030 a famosa Transamazônica começa em Cabedelo?
Pois é… produção de eventos também é cultura.